quarta-feira, 9 de junho de 2010

O nosso sistema de avaliação dos alunos

As reuniões de avaliação no final do ano complicam-me com os nervos. Parece que anda tudo movido por duas coisas:

1. Pena dos alunos que, coitados, por não saberem o suposto vão chumbar e depois vão ter de demonstrar num próximo ano que afinal têm de saber a matéria. Coisa estranha esta de ter de saber a matéria para passar de ano.

2. Medo dos encarregados de educação e consequente recurso à classificação atribuída pelo professor. Mais vale dar logo positiva do que depois ter de andar enredado em relatórios que justifiquem aquilo que estivemos a fazer ao longo do ano. Mais vale dar logo o nível que os alunos pretendem para não irritar os Encarregados de Educação. Além disso depois ainda teremos que justificar MUITO BEM a nota que em consciência achamos que o aluno merece pelo seu desempenho. Esta do justificar “muito bem” também me parte todo. Até parece que as justificações normalmente não são “muito bem”, até parece que as justificações para serem credíveis têm de ter um monte de palha associadas. Até parece que não basta unicamente dizer que o aluno tem negativa simplesmente porque não demonstrou ter adquirido as competências essenciais definidas pelo Ministério da Educação. Até parece que não basta anexar a esta frase, a grelha com os resultados obtidos pelos alunos em cada um dos parâmetros que constam dos critérios de avaliação.

Palavra que não entendo isto. Não consigo perceber professores que dizem frequentemente ter de “engolir sapos” e passar alunos que não sabem as coisas. Alunos que durante grande parte do ano gozaram com tudo e que agora no fim se lembraram que era necessário convencer os professores de que as matérias adquiridas nos últimos tempos correspondem ao domínio exemplar de competências trabalhadas ao longo de todo um ano lectivo. Ainda menos consigo perceber professores que dizem que os alunos tiveram negativa em todos os testes de avaliação ao longo do ano mas que depois terão nota para passar porque os restantes parâmetros dos critérios de avaliação assim o permitem. Mas como é possível definir critérios de avaliação que permitem que alunos que não sabem as coisas possam ter aprovação no fim? Não entendo.

Outro mito que acaba comigo: “Alunos que tiveram positiva nos primeiros dois períodos NÃO PODEM ter negativa no terceiro”. Não podem! Engraçado que é uma frase dita recorrentemente em todas as escolas mas que depois não aparece escrita em nenhum documento oficial e em nenhuma legislação. E não aparece porque não podia aparecer, porque é um perfeito disparate. Dizem, essas pessoas, que não se pode dar negativa nestas situações porque a avaliação é contínua e não diz respeito só ao terceiro período. Pois não é precisamente este o argumento que permite justificar o contrário? Pois se a avaliação é contínua e não terminou no segundo período, faz todo o sentido que os alunos continuem com o dever de demonstrar domínio das novas competências que vão ser trabalhadas. Ou não? É porque se não é assim nem sequer faz sentido que os alunos frequentem as aulas mais um período. Para que o fariam? Para perderem tempo? Para nos fazerem perder tempo ou porque de facto aquilo que se dá no terceiro período também se reveste de alguma importância? Muitas vezes (na maioria) são trabalhadas competências no terceiro período que ainda não tinham sido adquiridas nos períodos anteriores. Por manifesta falta de tempo não se consegue trabalhar tudo o que é necessário em dois períodos lectivos. Por isso mesmo é que também há um terceiro. Não é só para tirar férias aos professores, que já têm tantas (meses a fio). É que no meio disto tudo até parece que os alunos não têm obrigatoriamente (está na lei) de adquirir TODAS, repito TODAS as competências. Por incrível que pareça, até as trabalhadas com eles somente no terceiro período.

O giro disto tudo é que ao observar pautas com resultados de avaliação, muitas vezes temos muitos alunos, muitos mesmo, que aparecem aprovados com 2 negativas. Mas as outras também lá estão, por detrás de níveis positivos que foram “dados” para evitar problemas e que não correspondem de forma nenhuma aos saberes adquiridos. Alunos que a bem da verdade mereciam 4, 5 ou 6 negativas, mas que transitam de ano como se nada fosse. Alunos que gozaram com o sistema e que estão confiantes que os professores não se vão dar ao trabalho de justificar. E isto acontece ano após ano, com a desculpa que eles precisam mesmo de passar porque não lhes adianta nada ficar mais um ano. Pois se podem passar assim, para que lhes adianta estudar e repetir? A maçada que isto dava.

Mas que justificações idiotas são estas? Mas algum professor dá negativa por gosto pessoal? Algum professor recebe alguma bonificação por atribuir mais negativas? Como as coisas estão, por vezes parece que sim. O pior é que às vezes ainda se ouvem colegas a dizer: “Tu gostas é de chumbar os alunos.”

E de quem é a culpa disto estar neste estado? Dos professores que referi anteriormente? Também. Mas a culpa maior é da política educativa actual, da necessidade de apresentar estatísticas que demonstrem sucesso educativo, ainda que aparente. Se por um lado a Ministra refere que a legislação actual reforça a autoridade dos professores, por outro ameaça com a necessidade de relatórios e um sem fim de trabalhos que obrigatoriamente têm de ser feitos pelos professores para justificar o óbvio. No ano passado chegou-se ao ponto de incluir os resultados escolares dos alunos nas avaliações dos professores. Isto dizia tudo. A bandalheira que se pretende já estava às claras e, ainda por cima, passada a escrito na lei. Acabou por ser retirado, porque parecia mal.

Pronto, era isto, não liguem. É que hoje ia-me passando quando verifico que uma aluna que até ao fim da semana passada tinha garantidas 5 ou 6 negativas, hoje já só tinha 3. E a minha nota era uma situação de 3-3-2. Aguardo o recurso. De braços abertos.

Beijos e Abraços

P.S. Não se preocupem que os assuntos parvos regressarão logo. Isto é um post sem exemplo e que não se volta a repetir. Prometo!

10 comentários:

Anónimo disse...

Gosto de posts sérios!
Dão bom ar e credibilidade :)

Apetecia-me escrever sériamente mas é melhor não ... é que no meu tempo não se passava nada disto ...

Sou antiga eu sei mas não se nota assim muito :)


Leonor

Notinha: a anónima que comentou agorinha o post abaixo fui eu só que até me esqueci de assinar .. enfim, é muita idade :)

SRRAJ disse...

Gosto quando escreves sobre assuntos sérios, e concordo inteiramente com o que dizes. Já agora gostaria de saber se me autorizas a copiar este post e a enviá-lo via e-mail para todos os meus colegas (mencionando o autor, pois claro).
Beijocas

ANDARILHO disse...

P/ Leonor:

Mas quem tem um blog para que quer saber da credibilidade? Aqui não serve para nada. Nem em locais onde pode servir para alguma coisa eu me importo com o ar de credível ou de gozação, quanto mais num blog. Aliás, na maioria das vezes, quem me conhece mal acha sempre que eu estou a dizer as coisas a sério, tal é o meu ar credível a dizer disparates. LOL

Em resposta à notinha, claro que eu percebi que eras tu no comentário ao post abaixo. ;)

ANDARILHO disse...

P/ SRRAJ:

Eu às vezes também sou sério. Basta que me irrite e fico logo sério. LOLLLLLLLLLLL

Podes copiar e enviar para quem quiseres, é claro.

Beijinhos

' Claudjinha disse...

Depois de ler este post, tenho a dizer: estamos em Portugal e basta dizer isso... o "nosso" pensamento é muito à base do "coitadinho"... isso comigo não cola, acho estúpido! de que vale um aluno ser assiduo e bem comportad e tudo isso, se não sabe quem foi D. Afonso Henriques! LOL

Anónimo disse...

Há medo de chumbar... mas por outra razão: o tempo perdido e as férias surripiadas. É uma verdade.
Sabes: há escolas desta área em que moro cujos pais têm demasiado dinheiro e podem causar muitos aborrecimentos. Podem mover, com advogados, perseguições malditas. O tempo perdido, mesmo ganhando causas, ninguém to devolve. Mas é bem verdade a regra do "6 negas=3. Um abraço.

ass: o homem que tem medo dos bandidos.

ANDARILHO disse...

P/ ´Claudjinha:

Pois comigo também não cola e olha que às vezes até acontece que os alunos a quem dou negativa são os meus preferidos na turma (como pessoas). O ser assíduo e pontual são itens que nem fazem parte dos critérios de avaliação do meu departamento. Isso são obrigações deles e não demonstram conhecimentos. Que me interessa a mim um alunos que vão a todas as aulas e que chegam sempre a horas se depois não sabem nada? Até prefiro que faltem e cheguem atrasados mas que demonstrem competÊncias e saibam as coisas quando é necessário.

ANDARILHO disse...

P/ o homem que tem medo dos bandidos:

Pois isso também é verdade. Já sabendo o tempo que demora e o trabalho que dá depois demonstrar que afinal de contas os alunos só tiveram negativa porque mereceram, acaba por ser um factor tido em conta por muitos colegas. Mas ao tomarem este factor em conta dão força aos Encarregados de Educação que acabam por descredibilizar a escola pactuando com o facilitismo que já é mais do que o minimamente aceitável.

Abraço

Anónimo disse...

Olha lá... para quando um post com "assunto parvos"... é que já me aborrece vir aqui e deparar-me com o mesmo post há dias...

Ficarei a aguardar...

Bjs... Just me

P.S. já não me lembro da minha password para aceder à minha conta de blogger... por isso vai assim mesmo...anónimo

ANDARILHO disse...

P/ Just me:

Pois aguarda. Estou cansado e não tenho tempo para escrever parvoeiras. Daqui a 15 minutos pode ser que me apareça tempo, mas também pode só aparecer daqui a um mês. :D

Beijos